O trabalho escravo na indústria da moda ainda acontece no Brasil


Em uma empresa de confecção, Adrian começava seu dia as 06 da manhã e terminava às 03 da madrugada. Dormia e comia em seu local de trabalho, pois era a sua casa também: "Durante o dia todo eu ficava lá, pois começava a trabalhar durante a manhã e só parava na madrugada do outro dia, as vezes eu ficava trabalhando por 20 horas, sem parar. Quando meu turno acabava, eu ia descansar no meu quarto, porém eu nunca estava sozinho, já que o meu patrão deu abrigo para mais cinco colegas, que também chegaram no Brasil e não tinham onde morar.”


Esse relato é do imigrante paraguaio Adrian Paredes, que está no Brasil há 12 anos. Segundo ele, no início de sua estadia no país, começou a trabalhar em uma empresa têxtil, na cidade de São Paulo, que o contratou sem registro, pois era estrangeiro e não tinha toda documentação necessária para estar de carteira assinada.


A situação que ocorreu com Paredes é bastante comum e conhecida como trabalho escravo. A advogada, Carmem Parellada Nicolodi explica como essas circunstâncias acontecem no país, confira no vídeo:


Paredes ainda complementa contando como se sentia em toda essa situação: "Eu lembro que nesse tempo eu chorava muito, mas lutava para não ficar doente e morrer. Já meus colegas tomavam até remédios para ficar doentes e não precisarem irem trabalhar.”


Para o professor de direitos humanos, Cezar Bueno de Lima, as circunstâncias dos imigrantes é a mais difícil relacionada a esse trabalho: “a situação do imigrante é, muitas vezes, dramática devido à sua condição de sujeito desprovido de condições econômicas e dificuldades de comunicação.”


E conclui falando que para isso mudar é necessário: “informar da existência de instituições sociais e/ou oficiais de apoio na cidade onde o imigrante se encontra.”


As condições do trabalho análogo à escravidão, está cada vez mais sendo discutido no país, para que sejam implantadas políticas públicas dentro das indústrias de confecções.


O processo, ainda que lento, está sendo uma exigências dos consumidores. Segundo o Índice de Transparência de Moda no Brasil, produzido pelo movimento Fashion Revolution, as pessoas estão olhando para as marcas que estão praticando essas reformas: “No Brasil, os consumidores também estão preocupados com a situação de pobreza vividas pelas costureiras, que muitas vezes são encontradas em situação de escravidão contemporânea”.


A representante do Fashion Revolution em Curitiba, Aline Andreazza Bussi, conta que a transformação que a indústria está passando ocorreu com a mudança de consciência dos consumidores. “A moda é uma indústria pautada no consumo. Ao mudar a forma de consumir; consequentemente é necessário mudar a forma de produzir. Pois com o poder da decisão de compra cada vez mais maior, o consumidor está excluindo os valores que não se identifica mais”.


Mas, será que essa indústria está próxima de acabar?


Apesar, de diversas mudanças estarem acontecendo, o trabalho escravo no ramo têxtil está longe de acabar. Em uma pesquisa realizada pela Walk Free, foi concluído que a moda é o segundo setor que têm mais práticas de trabalho escravo em exportação, perdendo somente para o ramo de tecnologia.


“No meu último emprego, eu trabalhava por 8 horas e 45 minutos. O serviço era muito brutal, porque era produção. Eu fui mandada embora, mesmo eu trabalhando por duas pessoas, porque eu fui questionar o motivo de eu não trabalhar de carteira assinada. Eu não tinha segurança e nem estabilidade de nada, então o moço (chefe) não gostou do que eu falei e me mandou embora” - Esse relato é uma costureira que não quis se identificar. Ela ainda comenta que a sua maior dificuldade foi na remuneração, e que o seu maior salário foi R$ 0,50 por roupa.


O professor de direitos humanos ainda relata que o trabalho digno é capaz de abrir portas para ter uma vida ativa no estado e que o trabalho escravo atrapalha isso, pois: “o trabalho escravo, ou mesmo o trabalho precarizado e/ou sob-remunerado representa umas das violações mais graves dos direitos humanos”.


Além desse tipo de trabalho escravo, a advogada Nicolodi, relata que estão surgindo novas práticas que afetam os direitos humanos.



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