Acessibilidade em pauta: a moda em busca de inclusão

Atualizado: Abr 3

Mesmo com várias iniciativas inclusivas, modelos relatam a falta de acessibilidade na moda curitibana


Quanto tempo você demora para se vestir? tem gente que demora "horas" para escolher uma peça de roupa e tem gente que em cinco minutos já está pronto e vestido. Mas para algumas pessoas essa atividade diária não é tão simples. Para Hilana, a escolha de "qual roupa vestir" precisa ser realizada com muito cuidado, pois, um botão, uma costura, até mesmo uma prega costurada na parte de trás de uma calça pode machucar e afetar ainda mais a sua saúde.

A Modelo Hilana Santiago conta sobre as dificuldades para comprar suas roupas.

Modelo, dançarina e cadeirante de nascença, Hilana Santiago começou sua carreira na moda a pouco tempo. Há exatamente um ano participou do seu primeiro desfile em Florianópolis intitulado "moda inclusiva", e com ele, o sonho de ser modelo se tornou realidade. Sem nunca ter sofrido nenhum preconceito na carreira, a modelo no entanto desabafa a falta de acessibilidade em lojas e nas próprias roupas. "Têm peças que são difíceis de serem colocadas. Como eu fico sempre sentada, qualquer coisa na parte de trás de uma calça, por exemplo, pode gerar uma ferida e machucar ainda mais a minha coluna".


Hilana ainda comenta que mesmo tendo várias iniciativas em prol da acessibilidade - principalmente em Curitiba - a moda tem que melhorar muito para ser inclusiva de fato. Carmem Lucia, mãe da modelo, reforça esse comentário e afirma que "a nossa moda ainda não está preparada para vestir todos os tipos de pessoas. Quando falamos de pessoas com deficiências então ela (a moda) caminha em passos lentos".


Acompanhando a filha em todas as campanhas e desfiles, Carmem relata a dificuldade em achar roupas próprias para a filha, e que quando consegue encontrar alguma peça apropriada e confortável, é tudo muito caro, ou então, é sempre o mesmo modelo. “Minha filha quer se vestir como todo mundo, ela quer um jeans, um vestido, mas é difícil de você experimentar, porque tem zíper ou botões que são complicados para ela, além do mais, nem todas as lojas têm provadores acessíveis para experimentar a roupa”.


Joseane França, deficiente visual há 12 anos, conta que a moda tem dois problemas de inclusão: falta de acessibilidade de lojas, provadores, vendedores e roupas, e a falta de inclusão de pessoas portadoras de necessidades especiais no mercado de trabalho da indústria da Moda. Joseane é modelo, miss model inclusão de Porto Alegre e relata as dificuldades e preconceitos que enfrenta no dia a dia, mesmo tendo uma carreira de seis anos no mercado. Assista no vídeo:





Novas iniciativas inclusivas em Curitiba


No Paraná, 2.428.673 milhões de pessoas têm algum tipo de deficiência, ou seja, 1 a cada 5 paranaenses são portadoras de necessidade especial, segundo o último censo realizado pelo IBGE. Em Curitiba, esse número é de 606 mil pessoas, 20% da população curitibana. No entanto, a quantidade de lojas preparadas para atender uma pessoa com deficiência , ou uma loja que venda roupas que atenda as demandas dessas pessoas em Curitiba, é mínima.


Dados IBGE
Infográfico sobre tipos de deficiencias no Paraná

Pensando nesses dados e buscando dar mais autonomia aos seus consumidores, a estudante de design de moda, Tayná Ferreira Madureira, desenvolveu uma coleção de roupas funcionais que possibilita a retirada das mangas. A estudante comenta sobre a importância de sua coleção para seu público-alvo, que são pessoas que tiveram algum membro amputado, com ou sem próteses, pessoas com deficiência visual e cadeirantes: “você pode ter uma camiseta que ao tirar a manga se torna uma regata. Essas funções, para pessoa sem deficiência é normal, até considerado algo a mais, mas para pessoas que não têm um braço, ou até mesmo portadoras como nanismo, por exemplo, conseguir diminuir a altura das mangas é algo que pode mudar a sua vida”.


Tayná ainda relata que “se a gente pegar o Brasil, ¼ da população, de acordo, com último censo, têm alguma deficiência. Então, eu acho que estigmatização dessas pessoas refletem nessa inexistência - ou pouca existência - de produtos que visam atender suas necessidades e suas demandas. Por isso, eu acho importante que novas marcas inclusivas sejam desenvolvidas para esse público, porque é um nicho que não é explorado, mas que tem muitos consumidores.


Bruna Brogin, designer de moda e ganhadora do primeiro prêmio Viva Inclusão 2018, desenvolvido pela prefeitura de Curitiba, conta que o mercado deveria incrementar peças que sirvam tanto para pessoas com deficiências como para pessoas que sejam portadoras de necessidades especiais, “há pessoas que não gostam nem de sair de casa porque se sentem muito mal com as roupas que estão vestindo, porque normalmente aquela peça não atende às necessidades que seu corpo precisa”.


No desfile do Boqueirão Fashion Day 2019, a designer produziu uma coleção de moda funcional, em parceria com a estudante de moda Raquel dos Santos Fernandes que desenvolve um projeto de roupas para pessoas com deficiências severas. “Esse conceito de pessoas portadoras de necessidades especiais severa são destinadas a pessoas que apresentam pouco desenvolvimento motor e mínimo desenvolvimento de linguagem, conta a estudante.


Segundo Raquel, essa definição também é designado à doentes renais (que utilizam cateter ou fístula arteriovenosa), pessoas ostomizados (que passaram por uma intervenção cirúrgica para fazer no corpo uma abertura para saída de fezes ou urina) que usam bolsa coletora, e até mesmo doentes acamados e pacientes de quimioterapia.


“As pessoas normalmente têm preconceitos quando veem alguém com uma bolsa coletora na mãos, elas não sabem lidar com isso, por que as vezes essas bolsas tem restos de sangue ou urina”, conta a estudante, que ainda explica que o seu projeto “é para que essas pessoas tenham autonomia para viver sem se preocupar com os preconceitos diários”.


Com opções de aberturas na laterais, botões de pressão e costuras reforçadas, as roupas funcionais têm poucas diferenciações com as roupas que estamos acostumados encontrar nas lojas. No entanto, elas podem melhorar a vida e a auto-estima de pessoas com necessidades especiais.

Ficou curioso? Então confira no vídeo um pouco sobre as peças desenvolvidas de forma inclusivas que foram apresentadas no Boqueirão Fashion Day 2019:













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